Tudo pronto: cinto colocado, retrovisor no sítio, bigode aparado e alisado – que faz questão de lamber antes de o alisar com dois dedos, partindo do mesmo lugar e rapidamente rumarem em sentidos opostos –, óculos de sol e auricular do telemóvel instalado no ouvido esquerdo. Tudo pronto, disse ele mais uma vez para si. “Más un servicio realizar e dinero llegar”, cantava.
Fazia a sua vida com o carro que tinha comprado com muito custo, trabalhando e divertindo-se ao mesmo tempo. Era um taxista que fazia um pouco de todos os serviços, desde transferes a viagens banais no meio de Lima. Para ele era indiferente, pois enquanto trabalhava realizava uma das tarefas que mais gostava de fazer, guiar. A sua vida não era fácil e a concorrência era muita. Por isso tinha que se associar a agências de turismo. Era um condutor seguro e de confiança, e ganhava com isso boas gorjetas.
Hoje tinha como serviço buscar uns estrangeiros a uma praia relativamente perto de Lima. O negócio quase que lhe valia pelo resto do mês, mas o dinheiro nunca era demais. Cobrou um preço chorudo, eles não regatearam, um serviço mais que fácil, onde não tinha que esperar por ninguém em nenhuma estação imunda e perigosa. Apenas ir lá buscá-los, provavelmente vermelhos que nem uns tomates de tanto sol que apanharam.
Tinha orgulho de ser correcto e de não interferir com os seus clientes. Só falava o estritamente necessário e só quando lhe perguntavam. Caso contrário, permanecia calado como muito bem gostava de estar e tanto a sua mulher odiava.
“Pinga Eddy, habla alguna cosa. Ti quedas a más de dos horas delante de la televisión e ninguna palabra me as dirijido.” Respondia-lhe sempre com alguns monossílabos incompreensíveis, sem parar de ver televisão e de lhe prestar atenção, indiferente ao que se passava ao seu redor. Simplesmente fechava todas as entradas para o seu interior e mais ninguém conseguia lá penetrar, para além dele.
Chegou ao local combinado, mas não encontrou vivalma. “Devem ainda estar dentro do hostal.”, pensou ele em voz alta enquanto olhava pelo retrovisor para alinhar o penteado, lamber novamente os bigodes e os alisar com os dedos. Saiu do carro com os óculos de sol e dando-se-lhe ares de pessoa dura, dirigiu-se à estalagem. Lá os encontrou, ainda a almoçar.
“Tudo bien?”
“Sim, sim. Desculpa lá Eddy, mas estamos um pouco atrasados, não só porque ainda estamos a almoçar, mas porque fazemos tempo para que a dona do hostal apareça, e possamos pagar a nossa estadia. Ela saiu de manhãzinha e ainda não voltou. Pelo que nos disseram chega daqui a nada.”
“No ai problema, tomen lo tiempo que necesitan.”
“Queres entrar e comer connosco? Entra aí, pago-te um copo.”
“Non gracias, voi dirijir e quando lo hace no bebo. yo estoy muy bien cá fuera. Mi quedo no carro esperando por usted. Hasta luego.”
“Como queiras.”
Voltou para o carro, sentou-se com a porta do seu lado aberta. Estava muito calor e apetecia-lhe uma cerveja. O que tinha dito há pouco não era verdade. A verdadeira razão para não ter aceite a bebida oferecida era porque não gostava de confraternizar com os seus clientes. “Clientes são clientes, amigos são amigos e é melhor mantê-los separados.” Para isso mantinha sempre a sua posição de subalternidade perante os clientes, nunca se elevando na sua presença. Eles mandam e eu obedeço. Desde que paguem, por mim está tudo bem. Eu sou um profissional.
A espera demorou pouco tempo, eles reapareceram poucos minutos depois e mais rápida foi a sua viagem de volta a Lima. Pelo menos pareceu-lhe. Deixou-os no Hotel, despediu-se, contente por ter realizado um trabalho limpo e rápido, ter andado de carro – que tanto gozo lhe proporcionava – e regressar a casa com os bolsos recheados.
Orgulhoso de si, tanto quanto do seu pequeno bigode bem aparado e alinhado com cuspo, quando chegou a casa tinha um sorriso que não conseguia conter nos lábios. Abriu a porta com os olhos a brilhar, acompanhando os lábios, tapados pelos óculos de sol que se tinha esquecido de tirar. Depositou o dinheiro em cima da mesa da cozinha, rumou directo ao seu sofá em frente da televisão, sem reparar no ar embasbacado da sua mulher que, esquecendo-se de responder ao cumprimento que ele lhe fez, já só pensava em que é que o havia de gastar.
Sentou-se, ligou a televisão e pensou no sossegado serão que teria pela frente. Apenas ali, sem ninguém para o chatear e no presente que receberia à noite, da sua mulher, pelos bons serviços prestados. Poderia ser que hoje fizessem um filho.
Sorriu ao som desse seu pensamento, alisou com os dedos o bigode lambendo-o de seguida, sem se dar conta que o fazia pela primeira vez nesse dia pela ordem inversa do habitual.
sexta-feira, janeiro 23, 2004
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